"As almas das poetisas são todas feitas de luz,
como as dos astros: não ofuscam, iluminam..."
(Florbela Espanca)
Apesar da busca de semelhanças e afinidades,
somos únicos.
E por uma questão de empatia conciliadora,
estimamos aquele cuja loucura coincida com a nossa,
cujas buscas façam eco com as nossas tateantes procuras.
Aprendi a conhecer e a cultivar nesse mundo azul,
que por ser idealizado é tão perfeito.
... Nada é mais expansivo e verdadeiro
do que se conhecer pela linguagem.
Não há julgamento pelas aparências,
mas pelo que se imagina.
Devolve-se às palavras o seu encanto.
E oferecer palavras é se entregar.
Algo valioso.
Conhecer a letra sem conhecer a voz...
(Fabrício Carpinejar)
Esta manhã não lavei os olhos – pensei em ti. Se o teu ouvido se fechou à minha boca poderei escrever ainda poemas de amor? A arte de amar não me serve para nada. Um fogo em luz transformado. Subitamente, a sombra. Há dias em que morro de amor. Nos outros, de tão desamado, morro um pouco mais.
(Casimiro de Brito)
Mesmo o que sabes, sabes que não sabes, do não-saber que é ter sabido outrora.
Jorge de Sena
Quero fazer amor só com você
o amor do jeito que você quiser
O amormania pelo amor de ser
amado por você deusa e mulher
Pode ser nas estrelas ou na lua
de pele nua numa flor qualquer
amor secreto como o sol na rua
onde sentir meu cio me couber
Amor sacro de súbito profano
nas relvas do luar e à lua acesa
amor vino de rosa amor cigano
amor e mito de mulher e deusa
Só por você eu quero ser amado
do jeito como o seu amor quiser
Tal como faz o ser desesperado
de amor cigano por uma mulher
(A Estebanez)
Tira-me a luz dos olhos - continuarei a ver-te
Tapa-me os ouvidos - continuarei a ouvir-te
E, mesmo sem pés, posso caminhar para ti
E, mesmo sem boca, posso chamar por ti.
Arranca-me os braços e tocar-te-ei
Com o meu coração como com uma mão...
Despedaça-me o coração - e o meu cérebro baterá
E, mesmo que faças do meu cérebro uma fogueira,
Continuarei a trazer-te no meu sangue.
(Rainer Maria Rilke)
A profunda harmonia entre ela e o mundo - uma harmonia difícil, instável, porque ela insistia sempre em viver com rigor, com uma atenção que não afrouxava nunca, mesmo quando dormia - o rigor, por exemplo, com que domava ou desmanchava os sonhos, obrigando-se a lembrá-los, obrigando-os a saltar por dentro de arcos incendiados, as flores imaginadas formando finalmente um ramo, as flores de sombra, de sol, de areia, domar o vento, aprender a cavalgar o vento, pôr um risco de azul a contornar o mar, a dura acrobacia do seu corpo, ao mesmo tempo solto e geométrico, os difíceis exercícios interiores, os saltos mortais de olhos vendados sobre um fio de arame estendido entre o possível e o impossível.
(Teolinda Gersão)