quinta-feira, 29 de maio de 2008


"Mar

Metade da minha alma é feita de maresia."

Sophia de Mello Breyner Andresen

Viagem


Pelos meus dedos molhados
escorrem largos oceanos.
Pelos meus dedos azuis
desfilam navios esquálidos.
Meus dedos estão cansados
por isto, já nem se fecham:
portos vagos abrem-se e deixam
partirem todos os sonhos.

Os sonhos vão como mortos
em seus esquifes marinhos
nos corpos sem consistência
pousam anêmonas. Os rostos
entre rochedos opostos
desaparecem. Mistério
exibe-se em ar grave e sério
à terra do esquecimento.
Restos de brumas aladas
perpassam na maresia.
Minhas mãos já não sustentam
quilhas contra as águas claras.
Cantam na vela enfunada
ventos de todo quadrante
por mais que busquem o horizonte
o infinito os afasta.

- Sou como viageiro estranho
por mais que busque e navegue
do infinito o talvegue
jamais reencontro os sonhos.

Bernadette Lyra


"Que o homem não seja indigno do Anjo
cuja espada o protege
desde que o gerou aquele Amor
que move o sol e outras estrelas
até o Último Dia em que ressoe
o trovão na trombeta.
Que não arraste a vermelhos bordéis
nem aos palácios que erigiu a soberba
nem às tavernas insensatas.
Que não se entregue à súplica
nem ao ultraje do pranto
nem à fabulosa esperança
nem às pequenas magias do medo
nem ao simulacro do histrião;
o Outro o observa.
Que lembre que jamais estará só.
Ou no público dia ou na sombra,
o incessante espelho o confirma;
que não macule seu cristal uma lágrima.

Senhor, que até o fim de meus dias sobre a Terra
eu não desonre o Anjo."

Jorge Luis Borges

Poema


O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Como rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen



Cartões Animados
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quarta-feira, 28 de maio de 2008


Florescer – é Resultar – quem encontra uma flor
E a olha descuidadamente
Mal pode imaginar
O pequeno Pormenor

Que ajudou ao Incidente
Brilhante e complicado,
E depois oferecido, tal Borboleta,
Ao Meridiano –

Encher o Botão – opor-se ao Verme –
Obter o que de Orvalho tem direito –
Regular o Calor – escapar ao Vento –
Evitar a abelha que anda à espreita,

Não decepcionar a Grande Natureza
Que A espera nesse Dia –
Ser Flor é uma profunda
Responsabilidade.”

Emily Dickinson



Cartões Animados
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terça-feira, 27 de maio de 2008

Falo


Falo
Falo sim...
Falo que te amo
Apesar de saber que
O olho é grande...

Falo,
Falo sim...
Falo que te amo
Em alto e bom som!

Apesar de saber
Que a inveja não dorme.
FALO!...

Raul Dias

Graciela Blue...


...A Fada Nada Mais é,
Nada Mais Quer,
Do Que Somente Carinhos...
A Fada é Uma Mulher,
Com Todas as Tempestades,
Toda a Calmaría,
Universificada no Seu Interior.
Tem Dias Que Ela é Mágica,
Santa...Milagreira...
Tem Outros Dias Que Ela é
Apenas Humana...Neurótica,
Cansada.
Blue,
Na Metáfora de Tudo Ser do Bem,
De Tudo Ficar Bem,
De Sempre Haver Um Final Feliz...
Essa Fada, Essa Própria
Foi Registrada, Batizada Com o Nome
de Graciela,
Que Visita Meu Bosque,
Elogia Meu Jardim,
Tras Sempre Aroma de Rosas
e Carinhos Para Mim.

Maxuel Scorpiano

TENTA TE ORIENTAR PELO CALENDÁRIO DAS FLORES,
ESQUEÇE, POR UM MOMENTO, OS NÚMEROS, A SEMANA ,
O DIA DE TEU NASCIMENTO.
SE CONSEGUIRES SER LEVE, APROVEITA,
ENCHE TUAS MALAS DE SONHO E TOMA CARONA NO VENTO.

(FERNANDO CAMPANELLA
)

Fada Azul


Fada azul cercada de verde,

vive num eterno deslumbramento

és puro amor, teces a rede,

como aranha ao sabor do vento

e sopra com força o vento sul,

e voas pelo mundo perdida,

linda e alegre fada azul,

espalhando amor pela vida...

Linda fadinha azul

que brilha como vagalume,

de sua forma mágica

só podemos ver o lume

mas quando se enches de amor,

e esparge-o em forma de mágico pó

perfuma a vida como flor,

e tenho certeza de que não estou só...


Maria Cristina

Dizer-te, meu amigo,
que, à uma da manhã
e desta noite,
está lindo o nevoeiro

que um manto de sossego
assim inteiro
eu desejava dar-te
- e ter comigo.

Enviava-te um frasco,
se pudesse,
fechado em carta azul,

ou por fax de sol
(não fora o medo que o sol
o desfizesse)

Assim, mando daqui
esta espessura
de cheiro muito branco
e muito belo:

um manto de ternura
dobado num novelo,
que chegue
até aí.

Ana Luísa Amaral