Entre Fadas e Borboletas circulamos. Neste movimento transitório, inalterável, percorremos. Entre mistérios e paraísos lilases equilibramos. Entre matizes rosas e azuis voamos. E nos canteiros perfumados cultivamos. As flores mais lindas colhemos. Rosas vermelhas ou brancas exalamos. E nas manhãs de verão, nos amamos. (Paty Padilha)
segunda-feira, 13 de julho de 2009
quinta-feira, 9 de julho de 2009
ESFINGE NEGRA by Sindri Nathanael

“Assim como falham as palavras na tentativa de exprimir qualquer pensamento. Também há falha do pensamento quando se quer pronunciar aquilo que deve ser dito em apenas uma palavra; para que a idéia não se perca nos labirintos das frases. Que fazer? Deixar o que vem antes das palavras, em segurança. Guardar a idéia puríssima no silêncio. Palavras não são de se brincar.”
Arriscando, tenta-se:
Ela acha que consegue conhecer o que as pessoas sentem. Vai vê consegue mesmo. Mais o que importa, é que ela própria se perde em seus sentimentos. Isso causa uma desorganização profunda em sua vida íntima. Passando assim, a descobrir formas de distraí-se de sua dor latente, convivendo nesse caos de forma incrível. Saltando de um medo para outro, esquivando-se das tentativas de solução. Ela conhece a saída. Tem a chave da porta, mais não à coragem para levá-la a fechadura. É um perigo muito grande compartilhar do medo de uma outra pessoa. Melhor compartilhar fome. Ela compartilha medo e verdade; suas verdades, mais não todas. Ela também é um mistério. E carrega o peso de ser um mistério, levando-a a correr o risco que é aventurar-se na viagem interna, em busca das respostas. Essa busca íntima, também é um perigo. Ela corre o risco, e paga o preço da audácia.
Intensa, dança para alegrar o espírito, no ritual seco de seus movimentos. Dança para sentir seu corpo. Gosta de descobrir-lo e submete-o ao limite de suas expressões. Ela se diverte. Seu divertimento está nas coisas mais improváveis: lambe o sal da pele, vê ondas em piscinas, ler versos ao redor de um copo... Desestabiliza os fracos e inclina os fortes. Desafiadora. A ela não falta ar. Faltam pulmões, faltam cigarros. Ela faz tudo por capricho, às vezes funciona ao contrário sob seus ares de marquesa. Entende os presos e absolve os condenados. Ajoelha mais não reza. Odalisca, freira, vadia. Preta... Branca... Colorida. Ela é toda ela. Todinha... "Menina, entra já pra casa! Olha o sereno... Vai pegar um resfriado!!", "Já vou mamãe... Apenas deixa-me terminar de contar as estrelas...".
07.08.09
Arriscando, tenta-se:
Ela acha que consegue conhecer o que as pessoas sentem. Vai vê consegue mesmo. Mais o que importa, é que ela própria se perde em seus sentimentos. Isso causa uma desorganização profunda em sua vida íntima. Passando assim, a descobrir formas de distraí-se de sua dor latente, convivendo nesse caos de forma incrível. Saltando de um medo para outro, esquivando-se das tentativas de solução. Ela conhece a saída. Tem a chave da porta, mais não à coragem para levá-la a fechadura. É um perigo muito grande compartilhar do medo de uma outra pessoa. Melhor compartilhar fome. Ela compartilha medo e verdade; suas verdades, mais não todas. Ela também é um mistério. E carrega o peso de ser um mistério, levando-a a correr o risco que é aventurar-se na viagem interna, em busca das respostas. Essa busca íntima, também é um perigo. Ela corre o risco, e paga o preço da audácia.
Intensa, dança para alegrar o espírito, no ritual seco de seus movimentos. Dança para sentir seu corpo. Gosta de descobrir-lo e submete-o ao limite de suas expressões. Ela se diverte. Seu divertimento está nas coisas mais improváveis: lambe o sal da pele, vê ondas em piscinas, ler versos ao redor de um copo... Desestabiliza os fracos e inclina os fortes. Desafiadora. A ela não falta ar. Faltam pulmões, faltam cigarros. Ela faz tudo por capricho, às vezes funciona ao contrário sob seus ares de marquesa. Entende os presos e absolve os condenados. Ajoelha mais não reza. Odalisca, freira, vadia. Preta... Branca... Colorida. Ela é toda ela. Todinha... "Menina, entra já pra casa! Olha o sereno... Vai pegar um resfriado!!", "Já vou mamãe... Apenas deixa-me terminar de contar as estrelas...".
07.08.09
ENGATILHANDO UM SONO by Sindri Nathanael

Já havia tomado banho, pois a noite estava quente, preparava-se pra dormir. Enxugou os pés, em torno de cada dedo e calcanhares. Depois se perfumou com suavidade, penteou os cabelos molhados como de costume, em um ritual todo humano. Olhou para o espelho, em surpresa, como se não conhece o próprio rosto, demoradamente fitou os próprios olhos, e quanta dor existiam neles: era a própria dor. Recusou-se instantaneamente em continuar a olhar, não podia suportar tanto descontentamento. Deitou-se, ajeitou o corpo lentamente, procurando a melhor posição na cama ortopédica, para que não sentisse dor física, pois sabia que a dor em sua alma o afligiria pela noite toda e não precisava de uma agonia extra. Sentia o vento bater em seus pés, em sensação de água evaporando, era fato que não havia enxugado os pés direito. Uma sensação agradável o possuía, ficou contente em sentir.
Virou-se para o lado, com o braço direito em baixo da nuca sentindo os cabelos molhados tocar a pele seca, numa inútil tentativa de conforto. Era uma tortura encontrar sossego para descansar do dia atribulado e de tantas decepções que tivera. Por algum instante sentiu-se leve, tocava o rosto, sentia o atrito, e os ruídos que produziam, ouvia-os como uma melodia distante dentro do próprio corpo. Em eco. Aumentava o atrito intuitivamente, acelerando a música em ritmo estonteante. Experimentou esfregar os fios dos cabelos, destes brotaram um novo som, que misturado ao do ventilador e as batidas apreensivas do coração; estava compondo sonhos musicais para ninar o seu espírito inquieto e o corpo dolorido.
O que tanto lhe tirava o sono? Teria uma resposta em seu alcance, se sua mente não tivesse o turbilhão de pensamentos desorientados, esbarrando-se freneticamente, num liquidificador de idéias. Sentia os músculos enfraquecidos, e os dedos enrijecidos. Puxou uma a um, iniciando pela mão direita, na tentativa de libertá-los, e sabia que conseguira quando subitamente ouviam-se os estalos dos ossos. Que deleite.
Fechou os olhos, e com espanto abriu-os apressadamente. Medo do escuro? Não! Temor das luzes que vira como mandalas. Iluminadas e faiscantes no avesso de suas pálpebras. Várias, girando entre si, dançando e dançando, ao som dos ritmos que descobrira. Fechou os olhos novamente, agora sem medo, e para seu espanto sentiu-se todo comovido; adormecendo lentamente, acalentado dentro de uma barriga maternal, submerso em placenta. Estava todo feto. Aquecido e prematuro. Num berço de carne uterina. Dormiu enfim, sem está num barquinho de jornal naufragado em uma banheira de águas turbulentas. Era um botão de magnólia fechado, sem pressa para desabrochar. Uma lagarta no casulo do mais alto galho. Bem aventurados sejam os que dormem facilmente. Sem dor nas costas.
22.09.09
Boa noite!
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Labirinto

Assim que o sino tocou
Blim – Blem - Blom –Blão
O som longe, longe, longe-ão
Atravessou a rua
Atravessou a lua
Atravessou o tempo
E ao velho e fechado portão
Destrancou ...
E a canção longe, longe , longe-ão
Do sino Blim – Blem – Blom - Blão
Foi buscando, em uma antiga era
Crianças, mil e uma
De corações loiros
Ruivos
Pretos
Cor-de-
Mel,
Meninos e meninas
De sonhos tão grisalhos
Flores de uma esquecida primavera...
E aqui, em Hamelin,
Há que ser-se o que se quis ser
Do lado de fora do Portão...
E ao som do sino
Blim – Blem –Blom – Blão
Estrelas, fadas, poetas e ratinhos
De mãos dadas dançarão...
(♥ Vera M. ~ Countess Kahmala)
Blim – Blem - Blom –Blão
O som longe, longe, longe-ão
Atravessou a rua
Atravessou a lua
Atravessou o tempo
E ao velho e fechado portão
Destrancou ...
E a canção longe, longe , longe-ão
Do sino Blim – Blem – Blom - Blão
Foi buscando, em uma antiga era
Crianças, mil e uma
De corações loiros
Ruivos
Pretos
Cor-de-
Mel,
Meninos e meninas
De sonhos tão grisalhos
Flores de uma esquecida primavera...
E aqui, em Hamelin,
Há que ser-se o que se quis ser
Do lado de fora do Portão...
E ao som do sino
Blim – Blem –Blom – Blão
Estrelas, fadas, poetas e ratinhos
De mãos dadas dançarão...
(♥ Vera M. ~ Countess Kahmala)
Panorama


Em cima, é a lua,
No meio é a nuvem,
Embaixo, é o mar.
Sem asa nenhuma,
Sem vela nenhuma,
Para me salvar.
Ao longe, são noites,
De perto, são noites,
Quem se há de chamar?
Já dormiram todos,
Não acordam outros...
Água, vento, luar.
O trilho da terra
Para onde é que leva,
Luz do meu luar?
Que abismos aéreos
De reinos aéreos
Para visitar!
Na beira do mundo,
Do sono do mundo
Me quero livrar.
E em cima – é a lua,
No meio – é a nuvem,
E embaixo – é o mar!
(Cecília Meireles)
No meio é a nuvem,
Embaixo, é o mar.
Sem asa nenhuma,
Sem vela nenhuma,
Para me salvar.
Ao longe, são noites,
De perto, são noites,
Quem se há de chamar?
Já dormiram todos,
Não acordam outros...
Água, vento, luar.
O trilho da terra
Para onde é que leva,
Luz do meu luar?
Que abismos aéreos
De reinos aéreos
Para visitar!
Na beira do mundo,
Do sono do mundo
Me quero livrar.
E em cima – é a lua,
No meio – é a nuvem,
E embaixo – é o mar!
(Cecília Meireles)
Sobre Tênis


São dois tênis azul desbotado
Um pra lá, outro pra cá
Atravessaram muita chuva
Um pra chop, outro pra chaf
Comeram muita poeira
Um pra cof, outro pra fuf
Toparam muita pedra
Um pra toc, outro pra tec
Chutaram muita bola
Um pra tump, outro pra bum
Chegaram em muita cabeça
Um pra tim, outro pra zum
Um velho par de tênis
Um pra cá, outro pra lá.
(Antonio Romane)
segunda-feira, 6 de julho de 2009
CATARINA E A PAREDE by Sindri Nathanael

Uma parede nua. Nua e sem vida. Era assim que ela ficava admirada diante de sua capacidade de enxergar o nada em algo tão cheio de vida. Pois bem, a parede tinha vitalidade, mesmo sem uma mera camada de tinta, estava crua, apenas cimento endurecido externamente e entre os tijolos acastelados. Mais é que Catarina, apenas contemplava a superficialidade, e não entendia que a divisória, era muito mais que isso, era inteiramente vital; tinha entre o amontoado de cimento e tijolos, suor humano, tinha dedicação e docilidade estampada na textura por quem a construiu, a parede era inteiramente humanizada, e isso era tão profundo, que ela não conseguia perceber, apenas julgava com a sensação fria que seus olhos vazios podiam lhe proporcionar. Culpa não tinha, seguia seu instinto limitado, pois ainda não descobrira outras formas de vê o mundo... E de vê paredes. De inúmeras formas tentava fazer com que as pessoas os vissem como ela própria considerava: sem sentido. E não é que algumas acreditavam mesmo. Até as crianças que são acostumadas a enxergar as coisas ao redor, com os olhos da alma, todas elas que se aproximaram, foram violentamente contaminadas pela frialdade de suas convicções. Os seres mais fracos, de frágil persuasão, esses eram naturalmente envolvidos com seu ceticismo, o que era um pecado. Não sabia Catarina, que tinha grande força no seu discurso, e que era um sacrilégio impedir crianças de sonhar. Ela mesma não sonhava.
De sua boca apenas manifestava-se o que sentia, e costumava sentir tudo com a dormência de um pós-operatório. Como um deserto castigado pelo sol ininterruptamente, sem a esperança de dias de aguaceiro, porque se chovesse um ínfimo chuviscar que fosse, para sutilmente umedecer-lhe os lábios e a língua branca, talvez experimentasse o espontâneo sentimento de gratidão. Ela não sabia agradecer. Desconhecia tal sentimento, não por nunca a terem ensinado a ser grata, pois isso ela sabia bem: só podia dar o que tinha. E reconhecimentos não havia em seu pálido ser, era puramente ela, a isso sempre fora legítima. Por isso, não era agradecida
à parede, por tê-la simplesmente, aquilo era só tijolo e cimento, nada mais.
Quanto à parede, continuava lá, sendo parede, nua e crua, com todos os desenhos fantásticos que só uma parede desprovida de cores pode ter. É que eles são vivos e autênticos, feitos da substância de que a própria parede fora feita. Uma parede não pede para ser pintada, não necessita de um azul ou vermelho para melhor existir, antes disso, deseja ser virgem, intocável pelas cores. Quando uma parede é pintada, escondem-se sua verdade, suas impressões digitais, seus olhos... Fica toda misteriosa em si mesma, um enigma a ser decifrado. O ato de observar paredes, estando elas em estado bruto, simplesmente com uma vasta camada de cimento seco, o reboco, (os tijolos é o esqueleto) é uma das sensações imaginativas mais fascinantes que se possa viver, é como vê desenhos em nuvens, a diferença é que, as nuvens são efêmeras, as paredes quase imortais. Uma parede só morre quando é pintada. Por vezes, quando uma já pintada, acentua manchas e descascados, ou quando a cor começa a desbotar brandamente, é a essência da parede lutando ferozmente para voltar a existir, é uma ressurreição. É permanente.
Quanto a elas, a parede, e Catarina, continuam convivendo na mesma casa. Juntas no mesmo lugar, trocando olhares... Catarina sempre apática e pretensiosa. A parede sempre desafiadora, na espera por ser descoberta, desejando que nunca Catarina, a cubra de tinta alguma, que nunca a mate, cobiçando humildemente ser tocada com a delicadeza de uma pluma nas pontas dos dedos. Ela, toda simples, conforma-se então, com aranhas, baratas e lagartixas a desvendá-la, já que mãos humanas, as de Catarina, seria o retorno de uma inocência perdida... Que talvez nunca viesse a existir.
22.09.2008
De sua boca apenas manifestava-se o que sentia, e costumava sentir tudo com a dormência de um pós-operatório. Como um deserto castigado pelo sol ininterruptamente, sem a esperança de dias de aguaceiro, porque se chovesse um ínfimo chuviscar que fosse, para sutilmente umedecer-lhe os lábios e a língua branca, talvez experimentasse o espontâneo sentimento de gratidão. Ela não sabia agradecer. Desconhecia tal sentimento, não por nunca a terem ensinado a ser grata, pois isso ela sabia bem: só podia dar o que tinha. E reconhecimentos não havia em seu pálido ser, era puramente ela, a isso sempre fora legítima. Por isso, não era agradecida
à parede, por tê-la simplesmente, aquilo era só tijolo e cimento, nada mais.
Quanto à parede, continuava lá, sendo parede, nua e crua, com todos os desenhos fantásticos que só uma parede desprovida de cores pode ter. É que eles são vivos e autênticos, feitos da substância de que a própria parede fora feita. Uma parede não pede para ser pintada, não necessita de um azul ou vermelho para melhor existir, antes disso, deseja ser virgem, intocável pelas cores. Quando uma parede é pintada, escondem-se sua verdade, suas impressões digitais, seus olhos... Fica toda misteriosa em si mesma, um enigma a ser decifrado. O ato de observar paredes, estando elas em estado bruto, simplesmente com uma vasta camada de cimento seco, o reboco, (os tijolos é o esqueleto) é uma das sensações imaginativas mais fascinantes que se possa viver, é como vê desenhos em nuvens, a diferença é que, as nuvens são efêmeras, as paredes quase imortais. Uma parede só morre quando é pintada. Por vezes, quando uma já pintada, acentua manchas e descascados, ou quando a cor começa a desbotar brandamente, é a essência da parede lutando ferozmente para voltar a existir, é uma ressurreição. É permanente.
Quanto a elas, a parede, e Catarina, continuam convivendo na mesma casa. Juntas no mesmo lugar, trocando olhares... Catarina sempre apática e pretensiosa. A parede sempre desafiadora, na espera por ser descoberta, desejando que nunca Catarina, a cubra de tinta alguma, que nunca a mate, cobiçando humildemente ser tocada com a delicadeza de uma pluma nas pontas dos dedos. Ela, toda simples, conforma-se então, com aranhas, baratas e lagartixas a desvendá-la, já que mãos humanas, as de Catarina, seria o retorno de uma inocência perdida... Que talvez nunca viesse a existir.
22.09.2008
A DOR DE EXISTIR by Sindri Nathanael

Eis que ela encontrava-se no calor violento de uma noite funesta, envolta em quimeras e agouros. Com o corpo quase atenuado, alonga o vidro branco de absinto em suas mãos trêmulas, acreditando que dentro daquele frágil recipiente, haveria de ter, três ou quatro goles do líquido que sem mais demoras lhe ocasionaria o alívio de liberdade que tanto necessitava. Despudoradamente contemplava o pequeno frasco e tocava-o como se fosse à cruz de um terço, com uma fé que já havia morrido... Silenciosamente rezando para seu Deus secreto. Foi então, que deitada em seu leito, atravessou por reflexos de memórias esquecidas, como uma vidente ousada, em puríssimo transe, vendo toda sua miséria diante dos olhos enrugados no semblante paralisado, sentindo em cada marca de expressão, calafrios diante daquelas quatro paredes cinzentas. Suas lamentações terrenas ocuparam-lhe a mente perturbada por agudos amplificados em seus ouvidos, nos dois buracos vagos. Na inquietação do instante, aquele que lhe seria breve, pois já havia despejado na boca empalidecida o líquido mortífero, sofria sem resignação e sem piedade de si mesma, pois fora a decisão que tomara, e já não havia mais ocasião para revogar a sentença, fora algoz de si própria.
A juventude estava perdida no passado. Seu corpo já não era o mesmo, a pele que outrora fora esticada em branco-rosadas, encontrava-se subversiva e sem brilho, suas sobrancelhas claras limitavam-se a poucos pêlos a cima dos olhos, suas pálpebras abrumadas pelo tempo. O contorno de seu corpo, não lhe agradava em nada, pois era volumoso e sem delicadeza nas formas, as unhas amarelecidas e os cabelos branquinhos, quase prateados, tosquiados, eram ralos e enfraquecidos. Não se sentia confortável no próprio corpo, sofria dessa sensibilidade como doença, e isso ela já não podia suportar. Não podia.
Com demasiado esforço, ergueu as costas com sofreguidão arrastando as pernas para a lateral direita da cama, queria fazer seu último passeio pelo quarto que sempre fora seu refúgio seguro. Ao assentar seus fracos pés no chão, pode sentir a umidade proveniente da água de chuva da noite anterior, que escorrera pelas telhas trincadas, atingindo o retrato de seus falecidos pais, retrato este que estava inteiramente transfigurado dentro da moldura pelas goteiras passadas, apenas restavam às silhuetas. Seguiu vagarosamente, contemplado a mobília empoeirada, mais não pode vê com exatidão as coisas, pois sua visão encontrava-se turva, pois o extermínio aproximara-se cada vez mais. Ocorreu-lhe então, a tentativa de apalpamento: com o andar tremeluzindo, foi conduzida pelo instinto que a despedida provocara em seu íntimo, caminhou lentamente até a velha máquina de costura que se encontrava esquecida no canto do quarto, lado à cama. Foi tocando com delicadeza as formas enferrujadas daquela que tinha sido fabricadora de tantos lindos vestidos de cetim e chita, que a mesma havia costurado para enfeitar-se ao longo de sua juventude sem tanta amargura. Continuou a busca por percepções vagarosamente em cada minúcia, experimentou levar nas mãos seus tubos de linhas, foi quando cortou o polegar esquerdo, em um golpe súbito até o cerne da mão; é que havia uma tesoura em meio aos tubos. E foi aí, que descobrira que ainda experimentara a dor, pois um pequeno grito de agonia, quase um soluço manifestou-se de sua boca e ressoou pelo quarto inteiro. O morno sangue escorreu-lhe pelo braço manchando de carmim sua camisola de rendas encardidas, não era uma dor intolerável, esta era quase dormente, apenas sentira para perceber que ainda havia vitalidade em seu envelhecido corpo. Com as mãos ensangüentadas e vacilantes ousou caminhar seus dedos pela face empalidecida, e foi como mágicas visões no espelho de sua alma. Ligeiras brisas noturnas que atravessaram janela à dentro, por um instante resumido, trouxeram-lhe o frescor da juventude. Em sua memória, recordou-se de como fora bonita, e de exultante beleza, sentiu com docilidade cada ruga desvanecer-se junto ao ar que saía ainda quente de seus pulmões, era como se todos aqueles anos pactuados com seu corpo dessem-lhe um último presente; fugindo de sua pessoa por um breve momento.
Que alívio sentira, e como era bom sentir seus seios novamente na altura certa, redondos e empinados, os mamilos rosados e convidativos. Tocou-se com um prazer quase sádico, apertou as pontas dos seios com excitação, escorreu as mãos agora magras pelo corpo liso e torneado, passando pelo umbigo onde percorreu as pontas dos dedos em movimentos circulares, como que brinca-se de descobrir o que era aquele pequeno furo, e não hesitou em descer um pouco mais as mãos até sentir os pêlos que anunciava o lugar onde queria chegar. Enrijeceu os dois dedos posteriores ao polegar, e com urgência penetrou na fenda ali contida, vasculhou o recinto a procura do que seria a saída do labirinto, onde desfrutaria do prazer que não era sólido. Não demorou muito pra que alcançasse a ápice de seu contentamento, assim, como não delongou a perceber que estava toda vermelha em sangue, como se houvesse desenhado a via sacra em seu corpo, desde o busto até os quadris. E que susto ocorreu-lhe ao se deparar com tamanho absurdo que vivera, sentiu os ossos ficarem completamente escuros com a humilhação que se submetera. Não podia crer que ainda estava naquele corpo avelhantado, de mulher humilhada pelo tempo. Era uma ferida seca, agora umedecida de sanguíneo pesar.
Quase sem poder sustentar o próprio peso, arrastou-se com demasiado esforço para a janela, fitou os céus, onde a lua pairava estridente, sem muitas estrelas, e ainda pode divagar pensamentos. Viu-se diante de uma brutal situação, irremediável, como ela mesma era, sabia que havia passado todos os seus dias perseguindo ilusões, gastando todos os instantes que escorriam como areia do tempo por entre os dedos, na inabalável espera por uma segunda chance, por uma breve mudança que resolveria tudo, consecutivamente criara um motivo para não se sentir boa o bastante, ininterruptamente cansada de seguir em frente. E como era difícil no fim do dia, contemplar o crepúsculo, sem carecer de alguma distração, de alguma perfeita libertação e sem peso talvez encontrar uma precária paz para dormir sossegada.
Sem nada para improvisar, sem uma última confissão, sem o conforto esperado e que sempre lhe fora negado, ela volta para cama quase desfalecendo, deita-se com a cabeça no travesseiro mofado. Ciente de que fora derrotada pela vida, entoa uma canção pesarosa, cantado ruidosamente, humildemente despedindo-se da existência que tanto lhe atormentou, até sentir seu sangue agora apressadamente congelar e o coração emudecer. Inevitavelmente nesta noite ela está em sua cama pela última vez, amanhã estarão sem ela; à morte murmurará em seus ouvidos de senhora aniquilada, “Tu foste bela... Em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo, amém”. Ela morre ao som da real celebração, na solidão de que sempre se habituou e que não pode se esquivar em nenhuma estação, descansa envolta em perfumes noturnos de uma noite que não foi menos triste com sua morte... “Os sinos chamam todos para missa da que em vida chamou-se Dolores Socorro do Pesar”.
22.09.2008
A juventude estava perdida no passado. Seu corpo já não era o mesmo, a pele que outrora fora esticada em branco-rosadas, encontrava-se subversiva e sem brilho, suas sobrancelhas claras limitavam-se a poucos pêlos a cima dos olhos, suas pálpebras abrumadas pelo tempo. O contorno de seu corpo, não lhe agradava em nada, pois era volumoso e sem delicadeza nas formas, as unhas amarelecidas e os cabelos branquinhos, quase prateados, tosquiados, eram ralos e enfraquecidos. Não se sentia confortável no próprio corpo, sofria dessa sensibilidade como doença, e isso ela já não podia suportar. Não podia.
Com demasiado esforço, ergueu as costas com sofreguidão arrastando as pernas para a lateral direita da cama, queria fazer seu último passeio pelo quarto que sempre fora seu refúgio seguro. Ao assentar seus fracos pés no chão, pode sentir a umidade proveniente da água de chuva da noite anterior, que escorrera pelas telhas trincadas, atingindo o retrato de seus falecidos pais, retrato este que estava inteiramente transfigurado dentro da moldura pelas goteiras passadas, apenas restavam às silhuetas. Seguiu vagarosamente, contemplado a mobília empoeirada, mais não pode vê com exatidão as coisas, pois sua visão encontrava-se turva, pois o extermínio aproximara-se cada vez mais. Ocorreu-lhe então, a tentativa de apalpamento: com o andar tremeluzindo, foi conduzida pelo instinto que a despedida provocara em seu íntimo, caminhou lentamente até a velha máquina de costura que se encontrava esquecida no canto do quarto, lado à cama. Foi tocando com delicadeza as formas enferrujadas daquela que tinha sido fabricadora de tantos lindos vestidos de cetim e chita, que a mesma havia costurado para enfeitar-se ao longo de sua juventude sem tanta amargura. Continuou a busca por percepções vagarosamente em cada minúcia, experimentou levar nas mãos seus tubos de linhas, foi quando cortou o polegar esquerdo, em um golpe súbito até o cerne da mão; é que havia uma tesoura em meio aos tubos. E foi aí, que descobrira que ainda experimentara a dor, pois um pequeno grito de agonia, quase um soluço manifestou-se de sua boca e ressoou pelo quarto inteiro. O morno sangue escorreu-lhe pelo braço manchando de carmim sua camisola de rendas encardidas, não era uma dor intolerável, esta era quase dormente, apenas sentira para perceber que ainda havia vitalidade em seu envelhecido corpo. Com as mãos ensangüentadas e vacilantes ousou caminhar seus dedos pela face empalidecida, e foi como mágicas visões no espelho de sua alma. Ligeiras brisas noturnas que atravessaram janela à dentro, por um instante resumido, trouxeram-lhe o frescor da juventude. Em sua memória, recordou-se de como fora bonita, e de exultante beleza, sentiu com docilidade cada ruga desvanecer-se junto ao ar que saía ainda quente de seus pulmões, era como se todos aqueles anos pactuados com seu corpo dessem-lhe um último presente; fugindo de sua pessoa por um breve momento.
Que alívio sentira, e como era bom sentir seus seios novamente na altura certa, redondos e empinados, os mamilos rosados e convidativos. Tocou-se com um prazer quase sádico, apertou as pontas dos seios com excitação, escorreu as mãos agora magras pelo corpo liso e torneado, passando pelo umbigo onde percorreu as pontas dos dedos em movimentos circulares, como que brinca-se de descobrir o que era aquele pequeno furo, e não hesitou em descer um pouco mais as mãos até sentir os pêlos que anunciava o lugar onde queria chegar. Enrijeceu os dois dedos posteriores ao polegar, e com urgência penetrou na fenda ali contida, vasculhou o recinto a procura do que seria a saída do labirinto, onde desfrutaria do prazer que não era sólido. Não demorou muito pra que alcançasse a ápice de seu contentamento, assim, como não delongou a perceber que estava toda vermelha em sangue, como se houvesse desenhado a via sacra em seu corpo, desde o busto até os quadris. E que susto ocorreu-lhe ao se deparar com tamanho absurdo que vivera, sentiu os ossos ficarem completamente escuros com a humilhação que se submetera. Não podia crer que ainda estava naquele corpo avelhantado, de mulher humilhada pelo tempo. Era uma ferida seca, agora umedecida de sanguíneo pesar.
Quase sem poder sustentar o próprio peso, arrastou-se com demasiado esforço para a janela, fitou os céus, onde a lua pairava estridente, sem muitas estrelas, e ainda pode divagar pensamentos. Viu-se diante de uma brutal situação, irremediável, como ela mesma era, sabia que havia passado todos os seus dias perseguindo ilusões, gastando todos os instantes que escorriam como areia do tempo por entre os dedos, na inabalável espera por uma segunda chance, por uma breve mudança que resolveria tudo, consecutivamente criara um motivo para não se sentir boa o bastante, ininterruptamente cansada de seguir em frente. E como era difícil no fim do dia, contemplar o crepúsculo, sem carecer de alguma distração, de alguma perfeita libertação e sem peso talvez encontrar uma precária paz para dormir sossegada.
Sem nada para improvisar, sem uma última confissão, sem o conforto esperado e que sempre lhe fora negado, ela volta para cama quase desfalecendo, deita-se com a cabeça no travesseiro mofado. Ciente de que fora derrotada pela vida, entoa uma canção pesarosa, cantado ruidosamente, humildemente despedindo-se da existência que tanto lhe atormentou, até sentir seu sangue agora apressadamente congelar e o coração emudecer. Inevitavelmente nesta noite ela está em sua cama pela última vez, amanhã estarão sem ela; à morte murmurará em seus ouvidos de senhora aniquilada, “Tu foste bela... Em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo, amém”. Ela morre ao som da real celebração, na solidão de que sempre se habituou e que não pode se esquivar em nenhuma estação, descansa envolta em perfumes noturnos de uma noite que não foi menos triste com sua morte... “Os sinos chamam todos para missa da que em vida chamou-se Dolores Socorro do Pesar”.
22.09.2008
domingo, 5 de julho de 2009
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