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sexta-feira, 30 de maio de 2008


Uma abelha, dessas que dizem ser italianas,
entrou pela janela,
obstinou-se em escolher-me,
pousa-me no ombro,
descansa de seus trabalhos.
Lisonjeado com aquela preferência,
comecei a amá-la devagar,
retendo a respiração,
com receio de que não tardasse
a dar pelo seu engano,
que cedo viesse a descobrir
que não era eu a haste de onde se avistavam as dunas.
Mas o seu olhar tranquilizava,
era calma ondulação do trigo.
Agora só uma interrogação perturba a minha alegria:
o que farei com o seu mel?

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Não canto porque sonho


Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
O teu sorriso puro,
A tua graça animal.


Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria somente um bicho sadio
embriagado na alegriada tua vinha sem vinha.


Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
Por vê-los nus e suados.

Eugénio de Andrade

Ofício de paciência (1994)


Também o deserto vem
do mar. Não sei em que navio,
mas foi desses lugares
que chegaram ao meu jardim
as palmeiras.
Com o sol das areias
em cada folha,
na coroa o sopro
ainda húmido das estrelas.

Eugénio de Andrade

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.
O seu corpo perfeito, linha a linha,
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do próprio coração.

Moreno, era a forma das pedras e das luas.  '
Dentro de mim alguma coisa ardia:
a brancura das palavras maduras
ou o medo de perder quem me perdia.

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até sentir
o meu sangue jorrar nas próprias fontes.

Eugênio de Andrade

segunda-feira, 12 de maio de 2008

O Silêncio


Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,
e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,
quando azuis irrompem
os teus olhos
e procuram
nos meus navegação segura,
é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,
pelo silêncio fascinadas.


Eugênio de Andrade