sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008


Esta manhã não lavei os olhos – pensei em ti. Se o teu ouvido se fechou à minha boca poderei escrever ainda poemas de amor? A arte de amar não me serve para nada. Um fogo em luz transformado. Subitamente, a sombra. Há dias em que morro de amor. Nos outros, de tão desamado, morro um pouco mais.
(Casimiro de Brito)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008


Mesmo o que sabes, sabes que não sabes, do não-saber que é ter sabido outrora.

Jorge de Sena

Amor Cigano


Quero fazer amor só com você
o amor do jeito que você quiser
O amormania pelo amor de ser
amado por você deusa e mulher

Pode ser nas estrelas ou na lua
de pele nua numa flor qualquer
amor secreto como o sol na rua
onde sentir meu cio me couber

Amor sacro de súbito profano
nas relvas do luar e à lua acesa
amor vino de rosa amor cigano
amor e mito de mulher e deusa

Só por você eu quero ser amado
do jeito como o seu amor quiser
Tal como faz o ser desesperado
de amor cigano por uma mulher
(A Estebanez)


Tira-me a luz dos olhos - continuarei a ver-te
Tapa-me os ouvidos - continuarei a ouvir-te
E, mesmo sem pés, posso caminhar para ti
E, mesmo sem boca, posso chamar por ti.

Arranca-me os braços e tocar-te-ei
Com o meu coração como com uma mão...
Despedaça-me o coração - e o meu cérebro baterá
E, mesmo que faças do meu cérebro uma fogueira,
Continuarei a trazer-te no meu sangue.
(Rainer Maria Rilke)

Boa tarde!!



A profunda harmonia entre ela e o mundo - uma harmonia difícil, instável, porque ela insistia sempre em viver com rigor, com uma atenção que não afrouxava nunca, mesmo quando dormia - o rigor, por exemplo, com que domava ou desmanchava os sonhos, obrigando-se a lembrá-los, obrigando-os a saltar por dentro de arcos incendiados, as flores imaginadas formando finalmente um ramo, as flores de sombra, de sol, de areia, domar o vento, aprender a cavalgar o vento, pôr um risco de azul a contornar o mar, a dura acrobacia do seu corpo, ao mesmo tempo solto e geométrico, os difíceis exercícios interiores, os saltos mortais de olhos vendados sobre um fio de arame estendido entre o possível e o impossível.
(Teolinda Gersão)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008


1.
Quando uma montanha se apaixona tudo pode acontecer... Começa aos saltos ou então fica para ali deitada a olhar as nuvens. Convém por isso não a escalar nesses dias e sobretudo não beber da água das suas nascentes.

2.
As montanhas apaixonam-se com frequência. Vestem-se de branco. De verde ou azul. Por vezes abrem as pálpebras. E a lava da sua paixão corre-lhe pelas faldas.

(Jorge de Sousa Braga, "O Poeta Nu" )

Desvio


Fazendo atalhos
Depois de mim
Antes do sol

Prenha de sonhos
Depois do cio
Antes de nós

Sobrou retalho
Roto de cor
Expostos ao sol

eu Só
(Elaine Malmal)

Conflitos



Vivo em duas mulheres
Uma quer calar
A outra quer falar
Uma tem horário
Outra dicionário
Uma tem dois filhos
Outra um par de brincos
Conflitos!
Uma ganha
Outra gasta
Uma ama
Outra afasta
Uma é chama
A outra é casta
Uma vive
Outra escreve
Em desordem natural
(Abigail Brasil)

Apenas uma lembrança assimétrica...



As folhas caiam quais gotas de orvalho
e espalhavam-se no ar.
A árvore mudava a sua copa outonal
e era também outono em seu coração...

E lá estava ela a contemplar a rua,
a olhar o nada como se esperasse alguém
mesmo sabendo que esse alguém não viria

Seus longos cabelos negros dividiam-se em tranças
e seu sorriso lindo de criança esmaecera,
mas, inexplicavelmente
ela não estava triste
estava aliviada por se haver livrado,
ainda que por apenas um dia,
do vil soldado do inferno que lhe atormentava.

E olhos negros a fitar a rua
percebeu ao cair da tarde
o nascer da lua
que nua
lhe dizia: Há vida!
(Ariadna Garibaldi)